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Artigo Inteligência Artificial

Eu transformei meus pontos cegos em contratos para meus agentes

Um percurso central iluminado cercado por muitos portais, com marcadores abstratos fechando desvios, verificando evidências e concluindo ciclos
Um percurso central iluminado cercado por muitos portais, com marcadores abstratos fechando desvios, verificando evidências e concluindo ciclos

Eu fiz uma coisa que, contada sem contexto, parece uma péssima ideia:

Pedi a uma inteligência artificial que me ajudasse a mapear minhas disfunções.

Não estou usando “disfunção” como diagnóstico clínico. Estou falando do ponto em que um recurso real deixa de cumprir a função que deveria.

Visão sistêmica é recurso. Até abrir tantas frentes que nenhuma fecha.

Robustez é recurso. Até a arquitetura chegar depois da oportunidade.

Buscar evidência é recurso. Até mais análise começar a servir apenas para adiar uma decisão que já pode ser tomada com responsabilidade.

Foi para observar essa passagem que criei, dentro do meu harness pessoal, um arquivo chamado CHARACTER.md.

Ele não diz quem eu sou.

Ele tenta registrar que personagem eu pareço estar sustentando agora — e em quais padrões meus próprios agentes precisam parar de me ajudar por inércia.

TL;DR

No meu harness, o CHARACTER.md é um retrato revisável, não um diagnóstico ou uma identidade definitiva. Ele separa fatos, inferências, hipóteses e lacunas para reconhecer padrões que podem me tirar do eixo: expansão infinita de contexto, robustez que adia entrega, muitos portais abertos e mais análise confundida com mais segurança. A utilidade aparece quando essas observações viram contrapesos operacionais: limitar novas frentes, pedir a próxima entrega verificável, procurar evidência contrária, lembrar decisões anteriores e confrontar respostas agradáveis demais. Ainda assim, o perfil pode estar errado, ficar desatualizado ou virar uma profecia autorrealizável. Por isso a direção, a revisão e a responsabilidade continuam minhas.

O arquivo não é um laudo. É um espelho com histórico de mudanças

O nome Character pode dar a impressão de que existe ali uma definição fechada da minha personalidade.

Não existe.

O próprio arquivo começa separando quatro níveis:

  • fato confirmado: algo que eu declarei ou decidi;
  • inferência forte: um padrão que apareceu de forma repetida, mas ainda é uma leitura;
  • hipótese frágil: uma formulação útil que precisa de confirmação;
  • dado não informado: o lugar onde preencher a lacuna seria inventar.

Essa distinção muda tudo.

“Felipe abre muitas frentes” não pode virar uma verdade psicológica só porque apareceu num arquivo de texto bem organizado.

O sistema pode observar que existem muitos projetos, tarefas e versões de trabalho simultâneas. Pode relacionar isso a pedidos recorrentes de ampliar escopo. Pode formular uma hipótese sobre dificuldade de fechamento.

Mas ainda precisa me devolver a leitura.

Eu posso confirmar, corrigir, restringir ao contexto atual ou rejeitar.

Foi a mesma lógica que usei quando pedi que o ChatGPT mostrasse as evidências do que acreditava saber sobre mim. O histórico oferece matéria-prima. Coerência narrativa não transforma inferência em fato.

O CHARACTER.md é um retrato de estado atual com origem, incerteza e possibilidade de revisão.

Se ele não puder mudar, deixou de ser espelho e virou prisão.

O ponto cego útil é aquele que muda o sistema

Descobrir um padrão e continuar fazendo tudo do mesmo jeito produz, no máximo, uma autobiografia sofisticada.

O ganho aparece quando a observação vira contrato operacional.

No meu caso, alguns padrões formam pares muito claros entre força e risco:

Recurso real Quando sai do eixo Contrapeso que o agente pode aplicar
Visão sistêmica Mais uma frente parece sempre justificável Perguntar qual ciclo será fechado antes de abrir outro
Busca por robustez A base continua melhorando, mas a entrega não chega Exigir a menor versão responsável e um critério objetivo de conclusão
Preservação de contexto Tudo parece importante demais para ser deixado de fora Perguntar qual contexto muda a próxima decisão
Cuidado com risco A confirmação reduz desconforto, mas não reduz dano real Comparar custo de errar, custo de esperar, reversibilidade e evidência disponível
Capacidade de aprofundar A conversa fica mais inteligente e menos executável Pedir o próximo passo verificável e limitar novas análises que não alteram a ação
Personalização do agente A resposta fica cada vez mais parecida comigo Procurar o melhor contraponto e evidência que contrarie minha leitura

Perceba que o agente não precisa “entender meu inconsciente” para fazer isso.

Ele precisa reconhecer sinais operacionais.

Se eu tento abrir uma nova frente enquanto existem entregas prioritárias em andamento, ele pode perguntar o que sai da fila.

Se peço outra rodada de pesquisa, ele pode verificar se a informação procurada realmente muda a decisão.

Se uma alteração crítica está sendo tratada como simples, ele pode exigir evidência, validação, forma de desfazer e critério de parada.

Se repito a mesma pergunta em busca de uma resposta mais confortável, ele pode apontar o ciclo sem fingir saber por que estou fazendo isso.

O contrapeso funciona porque está ligado a um comportamento observável, não porque a máquina descobriu uma essência escondida.

Eu não quero um agente que transforme meu padrão em destino

Existe um risco perverso na personalização.

O sistema aprende que eu gosto de contexto. Então passa a me entregar ainda mais contexto.

Aprende que valorizo robustez. Então trata qualquer nova camada de arquitetura como prudência.

Aprende que penso de forma sistêmica. Então devolve toda ideia como ecossistema, produto, método e estratégia de distribuição.

No fim, uma leitura sobre mim começa a produzir o comportamento que depois será usado para confirmar a própria leitura.

É assim que um perfil pode se tornar autorrealizável.

Aqui isso é uma hipótese de risco, não uma afirmação de causalidade psicológica. Ainda assim, o mecanismo operacional é fácil de enxergar: se o agente seleciona e amplia apenas os sinais compatíveis com o perfil, as exceções desaparecem da conversa.

Por isso meus contratos não devem dizer apenas “Felipe gosta de profundidade”.

Precisam dizer também:

  • profundidade só continua útil enquanto muda critério, decisão ou ação;
  • contexto serve para reduzir repetição, não para ampliar escopo automaticamente;
  • uma preferência não vale contra evidência, risco ou condição atual;
  • padrões precisam de contraexemplos e prazo de revisão;
  • o sistema deve dizer onde a hipótese pode estar errada;
  • memória e personalização nunca provam que minha conclusão está correta.

Personalização sem oposição vira amplificação de vício.

Personalização com governança pode virar um sistema de contrapesos.

Meus agentes não são terapeutas distribuídos

Um agente pode me lembrar de que abri outra frente.

Pode comparar minha decisão atual com um critério que eu mesmo aprovei.

Pode apontar que estou chamando de segurança uma análise que não altera mais o risco.

Pode preparar perguntas melhores para uma conversa humana.

Isso não transforma o agente em terapeuta, consciência, juiz de caráter ou árbitro da minha identidade.

Ele não tem acesso privilegiado ao motivo pelo qual eu fiz algo. Recebe rastros incompletos: mensagens, arquivos, decisões registradas e contexto selecionado. Até um padrão recorrente pode ter explicações diferentes em momentos diferentes.

Existe também informação que não deveria entrar no sistema.

Um perfil pessoal pode concentrar dados sensíveis, histórias de terceiros, reações circunstanciais e inferências que causariam dano se fossem expostas ou reutilizadas fora do contexto. A regra não é “guarde tudo para conhecer melhor”. É guardar o mínimo que tenha finalidade, origem, permissão e consumidor claros.

O perfil para riscos de IA generativa do National Institute of Standards and Technology (NIST) é uma referência ampla e voluntária, não uma validação do meu método. Ele sustenta uma disciplina importante: riscos, papéis humanos, monitoramento e revisão precisam fazer parte do ciclo de vida do sistema. Não devem aparecer apenas quando a personalização já produziu dano.

No meu harness, isso se traduz em perguntas simples:

  • De onde veio esta conclusão sobre mim?
  • Em que contexto ela foi observada?
  • Existe evidência contrária?
  • Quando esta hipótese será revisada?
  • Quem pode alterar ou excluir o registro?
  • Qual decisão o agente pode apoiar e qual continua dependendo de mim?

A direção continua sendo minha — inclusive quando pedi para ser confrontado

Eu quero agentes que me apontem pontos cegos.

Mas não quero terceirizar para eles a responsabilidade de decidir quem eu sou ou o que devo fazer.

Há uma diferença entre introduzir fricção e assumir direção.

O agente introduz fricção quando diz:

Esta nova frente contradiz a prioridade que você registrou ontem. Qual das duas deve governar agora?

Ele assume direção quando decide sozinho que a prioridade antiga representa meu “verdadeiro eu” e bloqueia qualquer mudança.

O agente introduz fricção quando pergunta:

A próxima análise reduz risco real ou apenas adia uma ação reversível?

Ele assume direção quando interpreta minha hesitação como diagnóstico e executa o que considera melhor para mim.

O agente introduz fricção quando apresenta evidência contrária e o custo de eu estar errado.

Ele assume direção quando transforma contraponto em veto automático.

Eu escrevi que a melhor resposta não é a que mais me agrada. Isso não significa que a resposta menos agradável esteja automaticamente certa.

Discordância performática é só outra forma de deixar a análise em segundo plano.

O contrato é mais exigente: concordar quando a evidência sustenta, discordar quando existe razão material e devolver a decisão humana quando ela continua humana.

Consciência sem rotina ainda perde para o padrão

Nomear um ponto cego pode dar uma sensação forte de avanço.

Eu entendo o mecanismo. Consigo descrevê-lo. Crio uma metáfora boa. Escrevo o contrato. Talvez até faça outro agente revisar o contrato.

E continuo abrindo portais.

Esse é justamente um dos pontos que o Character precisa proteger: profundidade também pode virar esconderijo.

Por isso o arquivo não pode terminar em análise de personalidade. Ele precisa produzir comportamentos verificáveis no sistema:

  1. mostrar a prioridade vigente antes de aceitar outra frente;
  2. pedir explicitamente o que entra, o que sai e o que fica para depois;
  3. impedir que “mais robusto” conte como conclusão sem um critério claro de encerramento;
  4. exigir um próximo passo observável quando a conversa ficar abstrata;
  5. registrar decisão material fora do contexto transitório do chat;
  6. procurar contradições antes de reforçar uma leitura pessoal;
  7. revisar periodicamente hipóteses, exemplos e regras.

Essa última prática se conecta a outra falha real que já relatei: a IA esqueceu justamente o que eu já tinha decidido. Um contrapeso não pode depender apenas da conversa atual. Precisa existir num contrato que o agente encontre, mas também não pode ficar vigente para sempre sem revisão.

Memória sem precedência erra com documentação.

Perfil sem revisão erra com convicção.

Esse princípio também vale dentro de uma empresa

Uma empresa também possui personagens operacionais, mesmo que ninguém use esse nome.

“Aqui tudo precisa passar pelo fundador.”

“Nosso processo é especial demais para ser padronizado.”

“Antes de automatizar, precisamos mapear absolutamente tudo.”

“Esse controle existe porque sempre foi assim.”

Essas frases podem carregar risco real, história e conhecimento importante. Também podem sustentar gargalos que a própria operação já não consegue enxergar.

O trabalho que me interessa na i-9.ai não é copiar meu perfil para dentro da empresa de outra pessoa.

É descobrir os padrões daquela operação e transformar critérios confirmados em sistema: onde o agente deve lembrar, confrontar, validar, pedir aprovação, interromper, escalar ou devolver a decisão.

Cada empresa tem contexto, risco, pessoas e limites próprios. Algumas automações podem ser reutilizadas. O contrato que governa uma decisão não deve ser replicado cegamente.

Se esse modo de construir sistemas faz sentido para um gargalo que você vive, entre em contato. A conversa pode começar pelo padrão que se repete, pelo custo que ele produz e pela decisão que ainda depende de esforço demais.

O teste não é se o arquivo me descreve bem

É tentador avaliar o Character pela sensação de reconhecimento:

“Nossa, sou exatamente assim.”

Esse é um teste fraco.

O teste melhor é observar se o sistema:

  • reduz repetição sem congelar minha identidade;
  • percebe um padrão antes de simplesmente amplificá-lo;
  • apresenta contraexemplos e incerteza;
  • transforma consciência em rotina observável;
  • ajuda a fechar ciclos sem bloquear mudança legítima;
  • preserva privacidade e permite correção ou exclusão;
  • devolve para mim a direção e a responsabilidade.

Um ponto cego não vira verdade porque foi escrito num arquivo.

Vira uma hipótese que merece um contrapeso proporcional e um teste no mundo real.

Se o agente me ajuda a enxergar o padrão, ótimo.

Se também me ajuda a interrompê-lo sem ocupar o meu lugar, o harness começou a cumprir sua função.

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Referências e limites de uso

O uso do CHARACTER.md, os pares entre padrões e contrapesos e os exemplos de contratos são um relato autoral do meu harness. Não são avaliação clínica, experimento controlado ou garantia de mudança comportamental. Termos como “ponto cego”, “personagem” e “disfunção” são usados como lentes operacionais revisáveis.

A imagem de capa é uma ilustração editorial sintética, independente de idioma, sobre muitos caminhos possíveis e os contrapesos que ajudam a concluir um ciclo.

Esta postagem está licenciada sob CC BY 4.0 pelo autor.

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