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Artigo Inteligência Artificial

AUTHOR.md não é uma biografia para a IA inventar o resto

Retrato de Felipe Abreu ao lado de camadas editoriais que separam identidade factual, estilo de escrita e contexto atual
Retrato de Felipe Abreu ao lado de camadas editoriais que separam identidade factual, estilo de escrita e contexto atual

“Escreva como eu” parece um pedido inocente até a hora em que o sistema preenche o resto sem evidência.

Ela pode acertar uma cadência. Pode devolver uma frase com cara de segurança. Pode até encontrar um vício de linguagem que eu reconheço na hora. E, mesmo assim, estar inventando a parte mais importante: trajetória, posição, limite, responsabilidade.

É por isso que eu não trato autoria como um efeito de maquiagem aplicada ao texto no final. Antes de pedir tom, eu preciso saber o que é fato, o que é posição confirmada, o que ainda é hipótese e o que o sistema simplesmente não tem autorização para inferir.

TL;DR

Chamo de harness o ambiente de contratos, memória, ferramentas e validações que sustenta a operação. Nele, AUTHOR.md é uma convenção para reunir contexto autoral verificável. Não é uma biografia pública, nem um guia de estilo, nem um prompt mágico, nem uma licença para a IA completar lacunas sobre uma pessoa. Um arquivo útil registra fatos confirmados, posições, critérios, limites, fontes e a regra de não inferir. O valor não está no nome do arquivo: está na curadoria, na evidência, na integração e na manutenção que impedem uma resposta fluente de virar uma versão inventada do autor.

O problema não é faltar estilo. É sobrar invenção

Eu já escrevi sobre como usar IA não me tornou menos autor. O ponto continua sendo o mesmo: autoria não é a quantidade de teclas pressionadas. É direção, escolha, recusa e responsabilidade pelo que foi dito.

Só que há um risco anterior ao texto pronto.

Quando alguém pede para um sistema “escrever como eu”, muitas vezes está pedindo uma coisa pequena e esperando uma coisa enorme. Quer ajustar tom, mas recebe uma personalidade improvisada. Quer evitar frases genéricas, mas acaba ganhando uma biografia com detalhes que nunca confirmou. Quer consistência, mas recebe uma caricatura bem escrita.

Eu prefiro outra pergunta:

o que, exatamente, esse sistema tem evidência para dizer que sabe sobre mim?

Foi uma pergunta parecida que fiz ao transformar contexto antigo em hipóteses verificáveis no post “O ChatGPT já sabe muito sobre você”. O que parece conhecimento precisa ser mostrado, confirmado, limitado ou recusado antes de ganhar função operacional.

O que eu chamo de arquivo AUTHOR.md

AUTHOR.md é uma convenção do meu harness: um arquivo de referência para manter contexto autoral verificável perto do trabalho que precisa respeitá-lo.

Não é um padrão universal. Outro sistema pode usar outro nome, outro formato ou nem precisar de arquivo algum. Eu uso esse nome porque deixa a pergunta explícita: qual material autoral foi confirmado, para que ele serve e quais lacunas continuam sendo lacunas?

Na prática, esse tipo de referência pode reunir categorias simples:

CategoriaO que pode conterO que não autoriza
Fatos confirmadostrajetória, escopo profissional ou preferências declaradas com origem clarainventar episódios para “humanizar” um texto
Posições confirmadasteses, critérios de decisão, exceções e contraexemplos confirmados pelo autortratar preferência como dogma eterno ou hipótese como convicção
Limitestemas, dados ou conclusões que exigem pergunta antes de usarpreencher silêncio com uma suposição conveniente
Fontesonde uma afirmação pode ser conferidatransformar uma referência em verdade maior do que ela sustenta
Não inferircampos que o sistema deve deixar em abertodiagnosticar, adivinhar intenção ou construir uma biografia plausível

Repare no que essa lista não promete: ela não transforma uma pessoa em conjunto fechado de parâmetros. Ela só torna parte do contexto mais legível e contestável.

Quatro coisas que ele não é

Uma biografia pública apresenta uma pessoa para leitores. Pode ser ótima para uma página Sobre. Não é, por si só, instrução segura para um sistema operar. Biografia tem seleção, narrativa e, muitas vezes, simplificação. Um contexto de trabalho precisa deixar claro o que foi confirmado, o que é relevante e o que não deve ser extrapolado.

Um guia de estilo ajuda a manter uma peça reconhecível: vocabulário, tamanho de frase, tom, exemplos de acerto e erro. No meu harness, STYLE.md é outra convenção: cuida de como a voz organiza pensamento, ritmo, humor, intensidade e escolhas linguísticas. Ele responde “como isso soa?”. Não responde sozinho “o que esta pessoa defende?”, “o que ela viveu?” ou “o que deve ser perguntado antes de afirmar?”.

Os dois arquivos isolados falham de maneiras diferentes. AUTHOR.md sem STYLE.md pode produzir fatos corretos numa voz genérica. STYLE.md sem AUTHOR.md pode produzir uma imitação convincente que inventa biografia ou posição. A combinação não transforma os arquivos em padrão universal nem dispensa revisão; só separa responsabilidades que costumam ser misturadas.

Um system prompt é uma instrução que orienta uma execução. Pode usar contexto autoral, mas não substitui sua curadoria. Instrução sem fonte vira uma ordem elegante com pouca sustentação.

E memória é continuidade recuperável de uma conversa ou operação. Ela pode carregar pistas úteis; não deveria receber, sem revisão, o poder de definir quem alguém é. Misturar memória com identidade é um jeito eficiente de transformar repetição em retrato.

Há ainda uma terceira responsabilidade que uso como convenção no meu harness: Character. Ela não reescreve biografia nem fantasia personalidade; funciona como postura operacional e contextual para contrapor padrões e pontos cegos. É o tema de “Eu transformei meus pontos cegos em contratos para meus agentes”. AUTHOR.md responde pelo que pode ser atribuído a mim e por sua proveniência; STYLE.md, por como a voz se expressa; Character, por quando um padrão pede contrapeso em vez de confirmação.

Essas diferenças importam porque um harness não é só uma caixa de texto maior. É um ambiente que precisa saber onde cada informação entra, o que ela permite e onde ela para.

Um exemplo deliberadamente pequeno — e fictício

Não vou publicar meu arquivo real, nem transformar um artigo em manual de engenharia reversa da minha operação. O princípio é mais útil que a vitrine.

Um começo fictício poderia ser assim:

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# AUTHOR.md — exemplo fictício

## Fatos confirmados
- Atua com software e automação há vários anos.
- Prefere que afirmações técnicas tragam fonte quando forem verificáveis.

## Posições confirmadas
- Eficiência não justifica pular revisão.
- Uma resposta agradável não vale mais do que uma resposta verificável.

## Limites
- Não inventar experiências, clientes, números ou diagnósticos.
- Perguntar antes de transformar uma hipótese em posição do autor.

Isso não é um esquema completo. Não deveria ser copiado como receita de autoridade instantânea. É só um recorte para mostrar a diferença entre escrever “imite meu estilo” e declarar o que existe, o que está confirmado e o que precisa continuar em aberto.

Um arquivo curto e honesto é melhor que uma enciclopédia de autoimagem sem origem.

O arquivo não dá licença para inventar

Há uma tentação previsível aqui: achar que, depois de registrar alguns fatos, a IA pode ligar os pontos sozinha.

Não pode.

Ela pode propor uma conexão. Pode dizer que duas decisões parecem coerentes. Pode perguntar se uma preferência se aplica a outro contexto. Mas não deveria trocar “parece” por “é” apenas porque a frase fica mais bonita desse jeito.

Esse limite conversa diretamente com “Hipótese não vira fato só porque a IA repetiu”. Um contexto autoral também precisa sobreviver à pergunta: de onde isso veio, qual é a evidência, quem confirmou e em que situação deixa de valer?

Se não houver resposta, a saída correta não é completar a história. É deixar o espaço marcado e devolver a pergunta para o autor.

Isso reduz uma das formas mais perigosas de bajulação algorítmica. A hipótese operacional aqui — não uma prova direta do mecanismo interno — é que o contexto e os padrões da conversa podem favorecer uma versão agradável e aparentemente profunda de você, especialmente quando esse tipo de resposta costuma receber retorno positivo.

Um prompt inicial para não começar pela fanfic de si mesmo

Se você quiser experimentar esse princípio no seu próprio sistema, comece pequeno. Um prompt organiza uma tarefa; ele não substitui a confirmação humana sobre identidade e trajetória.

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Ajude-me a criar um arquivo AUTHOR.md inicial para este projeto.

Não invente biografia, experiência, preferência, posição, diagnóstico ou estilo.
Separe cada item como: fato confirmado, posição confirmada,
limite, fonte ou pergunta em aberto.

Trate fatos e posições atribuíveis como contexto de AUTHOR.md; trate ritmo,
humor e escolhas expressivas como contexto de STYLE.md. Não use um para
preencher lacunas do outro.

Para cada sugestão, mostre a evidência disponível e diga quando ela não basta.
Se eu não confirmar uma hipótese, mantenha-a fora do arquivo.

Produza uma versão curta e revisável. Antes de propor uso desse contexto em
outros textos ou decisões, diga quais trechos são relevantes e quais limites
continuam valendo.

O resultado inicial não precisa impressionar ninguém. Precisa ser possível de revisar sem confundir suposição com currículo.

O valor está no trabalho que continua depois do arquivo

Salvar um AUTHOR.md não resolve autoria. No máximo, cria uma superfície melhor para cuidar dela.

O valor aparece quando o conteúdo é curado, quando uma afirmação tem origem, quando uma exceção não é apagada e quando o sistema consegue dizer: “não tenho base suficiente para falar isso em seu nome”.

É por isso que eu não vendo a ideia de um arquivo milagroso. O que faz diferença é a combinação entre contexto, critérios, revisão e manutenção ao longo da operação.

Na i-9.ai, esse é o tipo de cuidado que importa: não colocar uma IA para parecer inteligente em cima de um contexto mal resolvido, mas construir sistemas que exponham o que sabem, o que não sabem e quem ainda precisa decidir.

Uma voz reconhecível não nasce quando a máquina aprende a elogiar o autor.

Nasce quando ela recebe contexto suficiente para não precisar inventá-lo.

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Para se aprofundar

  • Biografia: ponto de partida enciclopédico para distinguir uma narrativa pública de um contexto operacional verificável.
  • Engenharia de prompts: contexto sobre elaboração de instruções; não equivale ao método de curadoria autoral descrito aqui.
  • Markdown: formato de texto simples usado no exemplo para registrar contexto revisável.

Referências e limites de uso

  • OpenAI, “Prompt engineering”: sustenta apenas que instruções estruturadas orientam a execução de sistemas de IA e devem ser tratadas como parte do desenho da interação. Não define AUTHOR.md, não cria uma identidade autoral verificável e não substitui revisão humana.

A capa é uma cena editorial sintética: Felipe aparece ao lado de folhas translúcidas que representam fatos, voz, fontes e limites sendo organizados antes de orientar o sistema.

Esta postagem está licenciada sob CC BY 4.0 pelo autor.

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